sábado, 29 de novembro de 2014

Na teia memorialística de Caderno de memórias coloniais




Caderno de Memórias Coloniais acompanha de perto o crescimento da personagem Isabela em Moçambique até sua mudança para Portugal. A partir de eventos decisivos da história desses países, como a guerra da independência moçambicana em 1974 e o retorno em massa dos colonos para Portugal. Esses eventos principais, além de outros em menor escala, que diluídos ao longo da história planejam a cronologia da narrativa conferindo a ela caráter fragmentário. A essa estrutura em fragmentos, que, diga-se de passagem, se sustentam como textos independentes, podemos atribuir duas razões principais: o resgate da memória, que por natureza dá um tom de inexatidão aos relatos e a arquitetura de post-capítulos, em razão de serem originalmente posts do blog da própria autora.
O olhar sobre os retornados, que sempre fora condoído, em Caderno de Memórias Coloniais a autora passa um olhar mais cru, menos apiedado, revelando as faces da verdadeira violência colonial: “Eu tinha de usar um anel de ouro com um rubi. Era feio e apertava-me o dedo. Os negros não usavam nada que os apertasse, a não ser o trabalho do branco. Servir o branco apertava já o suficiente”(pg 45). O trabalho apertava o corpo, por ser um trabalho escravo, e alma, pela privação de dignidade e liberdade. A autora, assim, vai contra o movimento de apagamento da violência do colonialismo português.
Da perspectiva de uma criança que começa a perceber o quão preconceituosa e problemática é a sociedade a que pertence, a história é contada em tom de inocência. Mas uma inocência perspicaz e irônica que capta as nuances de violência implícita e explícita personificadas na figura do pai.
A visão dos brancos sobre as pretas é acidamente ironizada deste ponto de vista “infantil”, vemos que
Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba, a não ser pela cor da capulana ou pelo feitio da teta, mas os brancos metiam-se lá para os fundos do caniço, com caminho certo ou não, para ir à cona das pretas. Eram uns aventureiros. Uns fura-vidas. (pg 13).
O senso comum e discriminatório do colonizador sobre os “pretos”, homens e mulheres, é exposto de modo a evidenciá-lo com tanta naturalidade que o torna irônico. Tal discriminação foi tão presente no colonialismo que os negros eram vistos como outra espécie inferior e eram comparados com animais. O crime deles, segundo a Isabela, era justamente serem pretos.
“A distância entre brancos e pretos era equivalente à que existe entre diferentes espécies. Eles eram pretos, animais. Nós éramos brancos, éramos pessoas, seres racionais.” (p. 35) “(...)olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar o olhos, admissão de culpa.” (p. 46)
Na passagem “As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada.” (p. 13) Isabela Figueiredo traz uma perspectiva menos suavizada do colonizador não se deixando levar pelo apagamento da violência portuguesa, que é tradicional nos relatos coloniais portugueses. Destacando-se principalmente pela maneira como narra sua história, justamente por conferir a ela a sobriedade de seu “eu” criança, permeando seu “eu” crítico e consciente da situação de Moçambique.
Apesar de bastante realista, pois é inspirado na vida da autora, Caderno de Memórias Coloniais é considerada uma obra autoficcional. A autoficção é um gênero que mescla as categorias de autobiografia e ficção de maneira paradoxal ao juntar, na mesma forma de escrita, essas duas palavras que deveriam se excluir. Sendo assim, surgem acréscimos ficcionais na história resgatada da infância da Isabela.
A narradora nos passa um olhar nostálgico de sua estadia em Moçambique, pois se identificava com aquela terra. “Eu gostava de conversar com os mainatos. (...) A minha mãe tinha medo que os mainatos me fizessem mal ou me roubassem. Ou desconfiava de mim, adivinhando a minha alma de preta.” (p.74)
A figura paterna é fundamental para a compreensão da obra, pois através dela a  protagonista percebia o processo colonial, que gera um trauma em relação ao pai e a Portugal. Traumas surgidos mais pelos silêncios do que pelas palavras e constituídos mais de fragmentos do que de narrativa. Além disso, há um sentimento dúbio em relação ao pai, visto que ela nutre ódio figura colonizadora dele e amor à figura paterna do mesmo. Podemos concluir que ele é uma metonímia do colonialismo, o que se torna evidente nesta passagem da entrevista do final do livro: “Quando meu pai regressou a Portugal trouxe consigo o colonialismo e nunca foi capaz de sair dele. O meu pai era o colonialismo.” (p. 21)
A família da Isabela era constituída de colonos brancos que, em consonância com Silvio Renato Jorge, escapam ou são repelidos de seu país devido ao movimento de independência das ex-colônias africanas. Procuram, assim, na metrópole o lugar que não lhe é dado em sua terra natal.
O sentimento identitário da autora ficcionalizada se estabelece de forma dúbia e intervalar, pois ao mesmo tempo em que tramita pelos dois espaços – Moçambique e Portugal – ela se distancia dos dois e acaba se tornando estrangeira em ambos os lugares. O retornado se torna duplamente estrangeiro, tanto em Portugal quanto na colônia. Ela se situa, portanto, no espaço de fronteira entre essas duas nações e, como uma estrangeira, a retornada é recebida com ambiguidade, pois é vista como um outro, objeto de repulsa e de atração.
Podia descalçar-me ás escondidas no mato, e ir clandestinamente, sem sapatos, a ver se conseguia que os meus pés ficassem como os pés dos negros, de dedos abertos e sola dura, rachada. E gingava como uma preta, para experimentar o que era ser preta. E as mamanas passavam por mim e riam-se, e os negros também. E diziam-se coisas que eu não percebia, riam-se, a branca, a branca, essa branca do electricista. E eu ria-me. Tinham reparado em mim. Parecia-me com eles. Tinham-se rido. Ia descalça. E não podia.(p. 101)
Essa passagem retrata a tentativa da personagem em se assemelhar aos moçambicanos, mas eles riam dela, isto é, tratavam-na como uma estrangeira. Ela é uma estrangeira do lugar onde nasceu e se torna estrangeira em Portugal também, já que as referências da metrópole que a personagem possuía eram diferentes das referências portuguesas dos que lá nasceram e vivem: “Em Portugal, habituei-me cedo a ser alvo de troça ou de ridículo, por ser retornada ou por me vestir de vermelho ou lilás.” (p. 119)
Não havia, inicialmente, um sentimento de pertença a Portugal e a terra a que pertencia, Moçambique, não poderia pertencer. A posição da menina como filha de colonizadores era ambígua, pois ao mesmo tempo em que notamos seu envolvimento com a ex-colônia, vemos que ela possui uma criação calcada nos modelos portugueses, apesar de não ser exatamente como em Portugal.  
Em suma, a situação intervalar da identidade do retornado oferece, principalmente para aquele que já nasce na colônia como a Isabela, uma dificuldade ao pensar no sentimento de pertença e origem em qualquer tempo e lugar. Além disso, experimenta constantemente uma vivência fronteiriça, na qual o sujeito se distancia e se aproxima ao mesmo tempo dos dois territórios, percorrendo por várias adaptações e escolhas. 





Referências



FIGUEIREDO, Isabela.  Caderno de memórias coloniais. Coimbra: Angelus Novus, 2009

JORGE, Silvio Renato. Sobre mulheres e estrangeiros – alguns romances de Olga Gonçalves. EDUFF: Niterói, 2009.



MORAES, Anita Martins de. Resenha de Caderno de memórias coloniais, Isabela Figueiredo in http://www.buala.org/pt/a-ler/resenha-a-caderno-de-memorias-coloniais-de-isabela-figueiredo


Autores:
Juliana Campos Alvernaz (1993)
Graduanda em Letras - Português/ Literaturas pela UFF. Foi bolsista PIBID e Iniciação Cientifíca com foco na literatura do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho e no gênero romance policial.  
            Rudá da Costa Perini (1991)
Graduando em Letras - Português /Literaturas pela UFF. Foi bolsista PIBID e vem se enveredando para o lado da Linguística. Contista não descoberto.

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