Com o passar dos
séculos a literatura portuguesa se espelha constantemente na história de
Portugal, como não poderia de ser. Tantas guerras, explorações marítimas,
batalhas campais, conquistas territoriais, disputas de poder, golpes de estado,
crises econômicas, geraram uma gama histórica retratada, em certos momentos,
como mítica, épica, heroica, como vê-se em Os
Lusíadas e outras obras clássicas que ajudaram a construir o imaginário
português sobre si mesmo por terem sido lidas pelos nacionais como documento
histórico de valor inquestionável. A literatura atuou como construtora do
imaginário da nação. Um imaginário falacioso e construído sobre grandes mitos
literários.
“Se a História, no sentido restrito de
conhecimento do historiável, é o horizonte próprio onde melhor se apercebe o
que é ou não é a realidade nacional, a mais sumária autópsia da nossa
historiografia revela o irrealismo
prodigioso da imagem que os Portugueses se fazem de si mesmos. (...) As
histórias de Portugal, todas, se excetuarmos o limitado mas radical e grandioso
trabalho de Herculano, são modelos de Robinsonadas: contam as aventuras
celestes de um herói isolado num universo previamente deserto. Tudo se passa
como se não tivéssemos interlocutor. (...) Essa situação não pode ser objeto de
uma simples referência de passagem. Reflete a estrutura de um comportamento
nacional que a obra dos historiadores apenas generaliza e amplia.” (Eduardo
Lourenço in O labirinto da saudade;
Psicanálise mítica do destino português, pg 17, 18)
Este “irrealismo prodigioso” que Eduardo
Lourenço menciona é justamente a projeção literária e historiográfica da glória
portuguesa no autorretrato que é feito com o passar do tempo. Sendo os
portugueses os heróis solitários das epopeias e acreditados pela nação como
tais pela maneira como são retratos. O autorretrato, assim, é sempre mais
pomposo do que é o modelo. A idealização do sentimento nacional português se
deve a produção literária que segue um paradigma ideológico de personagens
nacionais heroicizados. Na fase colonizadora portuguesa, por exemplo, os mesmos
viam-se como os mocinhos que iam aos países “menos desenvolvidos” e concediam a
eles a graça de vestir, falar, andar e pensar civilizadamente. Portugal é
considerado a primeira das potências colonizadoras dos tempos modernos e uma
das últimas a descolonizar seu império.
Voltando-se para o
regime ditatorial português de Salazar e Caetano que é derrubado em 1974, a
guerra colonial mantida pelo salazarismo contra os movimentos de libertação nas
províncias ultramarinas da África chega ao fim. Esse foi o passo decisivo para
a consumação da independência das colônias. A pressão internacional sobre o
novo poder constituído em Portugal e o desejo de liberdade dos povos
colonizados precipitaram os acontecimentos. É o início da descolonização.
Com a
descolonização, surge o problema da reintegração dos portugueses que habitavam
o território colonial e que agora, devido às revoluções, não pertenciam mais às
colônias, e não se encaixavam mais em sua própria pátria, cunhados
pejorativamente de “retornados”. Eram colonos ou filhos de colonos que, após a
proclamação da independência dos territórios portugueses na África, retornaram
a Portugal. Almas perdidas, sem pátria, sem um lugar no tempo e no espaço que
precisaram se readaptar e sobreviver, ou como foi o caso de muitos,
simplesmente padecer sem amparo, dormindo nos aeroportos ou nas ruas.
Alguns tinham
Moçambique (por exemplo) como sua própria pátria e ignoravam a existência da
metrópole, como era o caso dos portugueses da segunda e terceira geração, que
nasceram na África. Os mais velhos sentiam Porto, Lisboa, Portugal, como a
Terra, sua terra, e dela sentiam saudade. Ambos, de maneiras diferentes, não
tinham mais o seu lugar no mundo, o amor pelo seu território, pois tanto
aqueles que consideravam a África sua terra mãe como aqueles que consideravam
Portugal, estavam abandonados tanto por uma quanto por outra. É o que nos fala,
Julia Kristeva no fragmento:
“Não pertencer a nenhum lugar, nenhum tempo, nenhum amor. A origem
perdida, o enraizamento impossível, a memória imergente, o presente em
suspenso. O espaço do estrangeiro é um trem em marcha, um avião em pleno ar, a
própria transição que exclui a parada. Pontos de referência, nada mais. O seu
tempo? O de uma ressurreição que se lembra da morte e do antes, mas perde a
glória do estar além: somente a impressão de um sursis, de ter escapado.”(Julia Kristeva In Tocata e fuga para o estrangeiro;
Estrangeiros para nós mesmos, pg 15)
Os retornados eram estrangeiros em sua
própria pátria, a saudosa terra, Portugal. Hostilizados nas ruas, vítimas do
preconceito, ignorante mas socialmente explicável, de seus conterrâneos que
agora os viam como tão diferentes (ou até mais) quanto qualquer outro
estrangeiro invasor. A vestimenta, a fala, o comportamento, as idiossincrasias,
tudo dos retornados era alvo de uma perspectiva excludente. Eram tratados como
os restos do império que o mar havia trazido de volta para Portugal, somente
para poluir e denegrir.
A
imagem que os portugueses de Portugal tinham de quem vinha da África era de que
eram ricos vindo ocupar os lugares dos primeiros, tirar seus empregos, comer
sua comida, roubar suas mulheres. Mas os recém-chegados nada tinham além da
tristeza profunda de perder seu lugar, seus pertences e patrimônios. Amputados
de sua terra e angustiados por serem repelidos de “lá” e recebidos sem ao menos
dignidade “aqui”, muitas vezes desprezados por suas próprias famílias em
Portugal.
Portugal,
por sua vez, atravessava um período social e político conturbado, de transição
entre um regime de opressão e um regime democrático, o que intensifica ainda
mais as tensões internas do país. O retorno a Portugal de aproximadamente um
milhão de cidadãos causou um impacto muito grande no cenário português. Antes
de retornar, em razão da situação econômica, quem ainda estava nas colônias foi
impedido de realizar transferências bancarias para Portugal, e de trazer das ex-colônias
qualquer valor para evitar a fuga de riquezas. Os retornados foram obrigados a
abandonar tudo que haviam conseguido, levando apenas algum dinheiro.
Vistas
as circunstâncias externas nas quais o dito retornado estava envolvido, é
possível notar que o sentimento identitário deste indivíduo se estabelece de
forma dúbia e intervalar, pois ao mesmo tempo em que tramita pelos dois espaços
– Portugal e a colônia – ele se distancia dos dois e acaba se tornando
estrangeiro em ambos os lugares. O retornado se torna duplamente estrangeiro,
tanto em Portugal quanto na colônia. Ele se situa, portanto, no espaço de fronteira
entre essas duas nações e, como um estrangeiro, o retornado é recebido com
ambiguidade, pois é visto como um outro,
objeto de repulsa e de atração.
Pode-se afirmar, portanto, que a sua busca se assemelha àquela
empreendida pelos emigrantes. Também ele é um estrangeiro que, incapaz de
dissolver-se em seu atual espaço de existência, muitas vezes não se reconhece
como alguém que pertence a uma origem. Atravessando uma vida marcada por
rupturas, por escolhas e adaptações, parece não pertencer a qualquer lugar, a
qualquer tempo. ( p.106, JORGE, 2009)
Como afirma Silvio Renato Jorge no excerto
acima, a situação intervalar da identidade do retornado oferece, principalmente
para aquele que já nasce na colônia, uma dificuldade ao pensar no sentimento de
pertença e origem. Além disso, experimenta constantemente uma vivência
fronteiriça, na qual o sujeito se distancia e se aproxima ao mesmo tempo dos
dois territórios, percorrendo por várias adaptações e escolhas.
KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos
JORGE, Silvio Renato. Sobre mulheres e estrangeiros – alguns romances de Olga Gonçalves. EDUFF: Niterói, 2009.
LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade; Psicanálise mítica do destino português
Autores:
Juliana Campos Alvernaz (1993)Graduanda em Letras - Português/ Literaturas pela UFF. Foi bolsista PIBID e Iniciação Científica com foco na literatura do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho e no gênero romance policial.
Rudá da Costa Perini (1991)
Graduando em Letras - Português /Literaturas pela UFF. Foi bolsista PIBID e vem se enveredando para o lado da Linguística. Contista não descoberto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário