terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mordaças a uma cultura: a necessidade da desconstrução da perspectiva eurocêntrica de cultura dominante e essencialista

O universal é pensado, no pensamento ocidental, a partir de uma lógica europeia. Ao estudar, por exemplo, literatura universal nos deparamos com autores como Homero, Shakespeare, Kafka, Dostoiévski, Tolstói, etc. Esses autores, e muitos outros que recorremos ao pensar literatura universal, são europeus. Acízelo de Souza (2007) afirma que a literatura surgiu com a civilização ocidental. “Aliás, devemos dizer que a literatura é um produto cultural que surge com a própria civilização ocidental, pelo fato de que textos literários figuram entre os indícios mais remotos da existência histórica dessa civilização”. (SOUZA, 2007, p. 10)Por que só o ocidental? Ele estaria sendo eurocêntrico por não considerar as formas de expressão oral dos não-ocidentais? É complexo porque o autor em questão usa a literatura oral da Grécia no século VI A.C., Ilíada e Odisséia, para exemplificar e mostrar as primeiras formas de literatura.
Sabemos que Acízelo de Souza, como a maior parte dos estudiosos de literatura, restringiu-se apenas aos estudos de literatura sob uma perspectiva ocidental. É entendível visto que suas bases bibliográficas são constituídas de obras que possuem a mesma perspectiva ocidentalizante. Em vista disso, percebe-se que há uma necessidade iminente de evadir-se dos estudos literários que possuem olhar microscópico, em que prioriza apenas a visão ocidental. Em detrimento a isso, seria interessante pensar de forma macroscópica e conceber os estudos literários de forma mais ampla, levando em consideração as literaturas, principalmente, de países silenciados pelo domínio europeu.
Há inúmeras culturas silenciadas pelo colonialismo europeu, principalmente nos continentes africano e americano. Entretanto, veremos apenas o exemplo de um escritor de Cabo Verde – país africano de colonização portuguesa – chamado Ovídio Martins (1928) e como ele critica em seu poema o silenciamento.
O único impossível
Mordaças
A um poeta?
Loucura!

E por que não
Fechar na mão uma estrela
O Universo num dedal?(...)

Mordaças
A um poeta?
Absurdo!

E por que não
Parar o vento
Travar todo o movimento? (...)

Mordaças
A um poeta?
Não me façam rir!...
Experimentem primeiro
Deixar de respirar
Ou rimar... Mordaças
Com Liberdade
100 poemas, 1974

No contexto da brutal escravização, a mordaça presente no poema acima representa o silenciamento e a violência colonial. O poema, dessa forma, representaria uma forma de Liberdade (com L maiúsculo), em que o poeta tenta se livrar dos silenciamentos, principalmente o cultural, neste caso, impostos a ele.
Ainda sobre a universalidade eurocêntrica, para que o sujeito seja civilizado precisa ser grafocêntrico, ter religião embasada no cristianismo e vestimentas. Aquele indivíduo ou sociedade que não se enquadram nesses parâmetros não são considerados civilizados, mas sim selvagens, rústicos e primitivos.
Para Antonio Candido (1987), o conceito de civilização está atrelado ao de huminização e a literatura age como força humanizadora. Em “Literatura e subdesenvolvimento”, Candido usa expressões como homem inculto e atraso cultural para classificar os homens que possuem uma cultura mais oral do que escrita. Ele chega a afirmar que “a incultura em geral produzia e produz uma debilidade muito mais penetrante, que interfere em toda a cultura e na própria qualidade das obras.” (CANDIDO, 1987; P. 178).
 Se, para Candido, a civilização é humanização, os indivíduos da sociedade que não se adequam aos parâmetros de cilivizados – grafocêntrico, religião embasada no cristianismo, vestimentas – não são considerados humanos?
Entendendo universal como algo que engloba todos e isso inclui todos os países do mundo, focar apenas em países europeus, para pensar a literatura, por exemplo, é excluir todo um globo para valorizar uma minoria dominante. Por que pensar que as literaturas latina, africana, asiática etc não se encaixam na literatura universal?
Esse pensamento eurocêntrico nos estudos literários provém das colonizações, consideradas conquistas entre os séculos XVI e XX, feitas pelos países europeus. Grande parte dos países africanos colonizados por Portugal tiveram sua independência recentemente, nas décadas de 1960 e 1970. Sendo assim, as figuras estereotipadas e hierarquizantes de colonizador/dominante e colonizado/dominado associados à raça perduram, indireta ou diretamente, até os dias de hoje. O racismo, assim, é binômio indissociável de colonização.
É válido entender a relação das identidades dos envolvidos nessa dinâmica de colonização, que desemboca na ideia de hierarquia rácica. Nesse sentido, Lynn Mario Menezes de Souza (2004) esclarece, embasado no Hibridismo cultural de Homi Bhabha (1949), como se dá a construção da identidade dos sujeitos coloniais. A construção da identidade, para Bhabha, possui uma dinâmica relacional dos sujeitos coloniais. O ser humano se define em relação ao outro e, por isso, a identidade se constitui do olhar do outro. Além disso, percebe-se que toda a identidade é construída, isto é, não há identidade pronta/concluída e, também, a sua construção é instável.
É pertinente destacar que a identidade abrange vários domínios, podendo ser, portanto, identidade política, de gênero, biológica, racial, cultural, etc. A identidade abordada aqui abrange, de certa forma, um pouco de cada domínio citado. Entretanto, o interesse maior são as identidades racial e cultural, que, consequentemente, influenciam na identidade política.
Há, segundo Homi Bhabha em consonância com Fanon, três aspectos essenciais no processo de construção da identidade. O primeiro consiste na ideia de existir para o outro. Assim, a construção da identidade aqui é sempre pensada em relação ao desejo com o lugar do outro. O segundo aspecto incide no desejo de caráter dúbio da vingança, a qual desencadeia um processo de cisão. Ao mesmo tempo em que o colonizado quer estar no lugar do colonizador, ele quer, também, continuar no lugar de colonizado. Já o terceiro aspecto trata-se da “produção de uma imagem de identidade acompanhada simultaneamente pela tentativa agonística de transformar o sujeito, fazendo com que ele assuma essa imagem”. (SOUZA. P. 121)
Bhabha apresenta, pelo menos, dois modos de representação recorrentes na literatura colonial e pós-colonial. O primeiro modo é a análise de imagens, na qual a imagem representativa do sujeito é contemplada como reflexo ou manifestação de um conteúdo referencial conhecido e estável de antemão. No caso da representação do colonizado, por exemplo, a análise de imagens feita pelo (ex)colonizador reafirma sua superioridade, produzindo imagens racistas e discriminatórias do colonizado vistas, entretanto, como verdadeiras. A ideia de colonização, portanto, se dá na hierarquização e coloca sempre um outro (colonizado) inferior.
Carlos Moore, no prefácio do discurso de Aimé Césaire sobre Negritude (2010), esclarece a definição de racismo segundo Frantz Fanon (1925 – 1961). Para Fanon, o racismo despontaria do imaginário social não favorável ao negro africano e sua cultura, tornando-se uma prática real cultural e psicológica. Isso provinha da submissão constante dos negros ditos como inferiores, “para serem discriminados e explorados” (p. 27) Em vista disso, Fanon considera que seja preciso fazer uma revolta no regime político-cultural. A partir dessa proposição surgiu o conceito revolucionário de luta social da Negritude no século XX. O movimento foi efetivado na década de 1930, pela luta e posicionamento social de Aimé Césaire (1913 – 2008), da Martinica, Léopold Sédar Senghor (1906 – 2001), do Senegal, e Léon-Gontran Damas (1912 – 1978), da Guiana. (CESAIRE, A., 2010, p. 9)
Segundo Cesaire, afirmar a negritude é afirmar a humanidade do negro e enfrentar o racismo. Ela é uma forma de noção contrária ao racismo. É, ainda, uma decisão interna de se colocar de forma ética e moral frente à “racialização” das trocas sociais. Por conseguinte, a negritude se constitui como uma maneira de pensar, de ser, de atuar e de se posicionar diante da realidade do mundo. Realidade essa que valoriza e hierarquiza raças.
       Qual a importância da Literatura nessa afirmação de identidade? Primeiro, precisamos entender que Literatura é a representação da sociedade/temporalidade. A literatura africana vai representar as ideologias do colonizado em revolução. Será, ainda, usada como arma. A arma, nesse caso, seriam as línguas/linguagens, a afirmação identitária, anticolonial, anti-imperialista, antieurocêntrica, antirracista.
A teoria de Bhabha, esclarece que a soberania e a convicção visíveis no discurso hegemônico devem ser subvertidas, repensadas e desconsolidadas para que um novo discurso híbrido e libertário possa ser gerado, entendendo que toda cultura é dinâmica e que não há cultura acabada/finalizada. O hibridismo, portanto, atravessa os conceitos teóricos de Bhabha – representação, identidade, tradução cultural – por se tratar de um aspecto de todas as linguagens inseridas em todas as culturas.
Em consonância com Bhabha e Cesaire, para que haja a desconstrução do pensamento cultural e social eurocêntrico abordado no início deste ensaio, é preciso que a cultura seja vista, em contraposição à perspectiva ocidental de cultura dominante e essencialista, como híbrida, ativa e em permanente mudança. Para tal desconstrução é preciso, também, evidenciar e criar novos estudos literários que abordam as literaturas africanas silenciadas ao longo de toda a história da literatura. Poderíamos, assim, pegar emprestada a expressão usada por Ovídio no poema “O único impossível”, “mordaças a um poeta?”, e aplicar aos estudos literários em geral. Nos questionaríamos então: Mordaças a uma nação? A uma cultura? Loucura!


                Referências
CANDIDO, Antonio. “Literatura e subdesenvolvimento”. In A educação pela noite. São Paulo: Ática,1987.
_______________. O direito à literatura e outros ensaios. Angelus Novos, 2004.
CÉSAIRE, Aimé. Discurso  sobre a negritude. Org. Carlos  Moore. Belo Horizonte: Nandyala, 2010.
SOUZA, Lynn Mario Menezes de. “Hibridismo e tradução cultural em Bhabha” in ABDALA JR, Benjamin (Org.). Margens da cultura: mestiçagem, hibridismo e outras misturas. São Paulo: Boitempo, 2004. 2.
SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, 2007.

FERREIRA, Manuel. 50 poetas africanos: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe. Lisboa: Plátano, 1989.


Autora: 
Juliana Campos Alvernaz (1993)